Django Livre (2012)

Em entrevista Jamie Foxx comenta sobre o western sulista de Tarantino: “Ele vai fazer as pessoas olharem diferente para essa época” e acrescenta “A única coisa que Django realmente quer é amar sua mulher – e é isso que torna nossa história diferente. Tratamos de política, mas ele não está tentando resolver o problema da escravatura. Tudo o que ele quer é cavalgar em direção ao pôr-do-sol com sua amada”.

As palavras de Jamie Foxx foram um pouco fortes, mas em suma são verdadeiras. Como em Bastardos Inglórios, Tarantino não usou o holocausto como o plot principal do filme. Não é um filme sobre questões sociais. Em Django a escravidão está lá pra conceituar a época em que se passa o filme e para dar uma carga dramática para o personagem principal e acima de tudo gerar a maior motivação do personagem: a vingança. Em Bastardos Inglórios foi a vingança dos judeus, em Django Unchained é a vingança dos escravos.

Na trama que se passa dois anos antes da Guerra Civil, Django (Jamie Foxx) é procurado pelo caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz (Chirstoph Waltz) que acaba fazendo de Django seu parceiro. Depois de caçar vários criminosos pelo sul do país, os dois vão em busca da mulher de Django, Broomhilda (Kerry Washington).  A busca os leva até o escravista com práticas abomináveis Calvin Candle (Leonardo DiCaprio) proprietário da fazenda “Candyland”.

Tarantino abusa dos elementos do western spaghetti que ele tanto usou em seus filmes anteriores. Está tudo lá. Os close-ups característicos, os grandes planos. Porém o que está presente é “A Fórmula Tarantino”. Além dos diálogos improváveis e inusitados (certa cena lembra muito Monty Python) o pior das situações sempre acontece. Todos os roteiros escritos por Tarantino têm esse elemento em específico. Em uma sequência que seria algo vago em roteiro, acontece a pior das hipóteses. O que você imaginar de pior que pode acontecer, vai acontecer.

Tudo isso é algo de se esperar de um filme feito por ele, mas Django Unchained se destaca na relação que é criada entre o Dr. Shultz e Django. Quase como algo paternal, o caçador de recompensas alemão que tinha tudo para ser o pior dos homens, cuida e ensina Django, além de comprar sua liberdade. O desenvolvimento da trama parte desse companheirismo e segue com a evolução do personagem principal em seu próprio ambiente natural. A maior motivação de Django é o amor por sua mulher, algo simples que é muito bem encaminhado. Porém a vingança é o prato principal.

O velho escravo Stephen, interpretado por Samuel L. Jackson é o exemplo da nuance que existe na serventia dos escravos. Se Django é o escravo rebelde que luta pela liberdade junto com sua mulher, Stephen é justamente o oposto. O antagonista óbvio. A serventia dos escravos é tratada quase como o efeito que os membros do partido da Oceania sofriam no romance “1984” escrito por George Orwell. Reprimidos e torturados em certo ponto eles veneram e amam seu senhor, ao ponto de tramar junto com ele para prejudicar outros escravos (exemplo de Stephen). O personagem de Leonard DiCaprio, Calvin Candle é um vilão repugnante, mas seu papel não é tão importante quanto o de Stephen.

A trilha sonora do filme é a famosa concha de retalhos pop que Tarantino sempre faz. Dos temas clássicos de Ennio Morricone para os westerns spaghetti, passando por Jim Croce e chegando em Tupac e John Legend. A música tema de Django (1966) está presente no filme (assim como uma participação especial de Franco Nero).

Django Unchained é mais uma obra impecável de Tarantino que em entrevista levantou a possibilidade de essa ser a segunda parte de uma trilogia histórica (a primeira parte foi Bastardos Inglórios) assim como a trilogia dos dólares de Sergio Leone. Ele disse que ainda não planejou a terceira parte, mas pretende criar uma ponte com os filmes.

By |2020-05-26T15:59:52+00:00setembro 26th, 2020|Filmes|0 Comments

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